Cobrança irregular de encargo deve encarecer conta de luz em até 6%
A conta de luz do consumidor de energia de todo o País poderá subir até
6% neste ano. As cobranças irregulares incluídas no orçamento da Conta
de Desenvolvimento Energético (CDE), um encargo cobrado mensalmente da
população e das empresas para bancar custos de universalização de
energia, subsidiar programas sociais do setor e financiar as
indenizações das concessões elétricas, estão por trás desse aumento. A
conta bilionária vai ser definida nesta terça-feira (7) em audiência
pública realizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O
aumento expressivo decorrente de irregularidades, apurou o jornal O
Estado de S. Paulo, foi alertado pela Associação Brasileira de Grandes
Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace).
Todo ano, a agência reguladora define um orçamento para CDE. Depois de
analisar os custos incluídos no orçamento do encargo, a Abrace apontou
que diversas cobranças indevidas foram realizadas entre 1998 e 2011. O
caso mais notório diz respeito à apropriação irregular, pela Eletrobras,
de pagamentos recolhidos para amortizar financiamentos concedidos para
empresas da própria estatal, em condições mais vantajosas que aquelas
praticadas pelo mercado. Depois de analisar a queixa no ano passado, a
Aneel concordou que a estatal deveria devolver R$ 2 bilhões ao fundo da
CDE, por conta dessas irregularidades. Esse valor, no entanto, acabou
não entrando no orçamento do encargo que a Eletrobras enviou para a
agência neste ano. Isso significa que o valor acumulado, que, com as
devidas correções, já ultrapassa R$ 3,7 bilhões, turbinou o orçamento do
fundo, o qual tem previsão de chegar a R$ 14 bilhões, em vez de ficar
na casa dos R$ 10 bilhões. Uma segunda conta avaliada em mais R$ 2
bilhões tinha que ter saído das cobranças previstas para este ano, mas
também está na lista do orçamento de 2017 para ser cobrada do cidadão.
Os cálculos da Abrace demonstraram que, entre dezembro de 2010 e
dezembro de 2015, a compra de combustível para abastecer usinas térmicas
- a maior parte delas no Amazonas - teve um recolhimento de R$ 2
bilhões acima da própria capacidade de consumo dessas térmicas, ou seja,
recolheu-se muito mais dinheiro que o necessário para pagar pela compra
desse insumo. Para complicar a situação, o recurso foi usado, embora
não haja clareza sobre em que foi gasto. Somados, os dois rombos
previstos no orçamento da CDE chegam a R$ 5,7 bilhões. Caso a Aneel
confirme essas cobranças, esse valor terá impacto de até 6% na conta de
luz, dado que, para cada R$ 1 bilhão de cobrança no setor elétrico, há
repercussão média de 1% de aumento na conta de luz. A eventual aprovação
do orçamento com a inclusão desses dois problemas contraria decisões da
própria Aneel em avaliações anteriores. No ano passado, a diretoria da
agência chegou a emitir um despacho, no qual determinava que a
Eletrobras, então gestora da CDE - a partir deste ano, a gestão será
feita pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) -,
devolvesse o valor de R$ 2 bilhões atrelados à apropriação indevida. No
orçamento deste ano, porém, a agência não se opôs ao fato de a
Eletrobras ter apresentado uma tabela sem considerar o ajuste que a
própria Aneel exigia. Questionada sobre o assunto, a agência não fez
comentários, limitando-se a afirmar que a audiência pública que define
as cotas da CDE está pautada para apresentar seu resultado na reunião
pública desta terça-feira, 7. A Eletrobrás não se manifestou sobre o
tema até o fechamento desta reportagem. A Abrace também não comentou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário